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28 de Julho de 2021
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    A falta de familiaridade do idoso com a tecnologia e os golpes OU como aumentar a intimidade do idoso com a tecnologia?

    Henrique Bandeira, Advogado
    Publicado por Henrique Bandeira
    há 3 meses



    Que a tecnologia está cada vez mais presente no dia a dia do brasileiro, isso há muito já não é novidade. E muito menos é novidade a falta de familiaridade de determinados públicos com ela. Sendo desigual como é (e como sempre foi), o Brasil não permite que a sociedade como um todo possa dispor deste que já é considerado pela ONU como um direito universal do homem: o acesso à internet, sendo importante ressaltar a existência de proposta de emenda à Constituição da República, em trâmite no Congresso Nacional (8/2020) para classificá-la como direito fundamental.

    Apesar de não podermos adotar um discurso uníssono ao falarmos em tecnologia, a qual possui tantas faces, podemos nos ater (pelo menos) ao uso comum e diário da surface web, cuja utilização é tão difundida entre todos nós, classe privilegiada da sociedade - o chamado “Brasil oficial” - como diria Ariano Suassuna, para nos reportarmos ao fato de que o tal “Brasil real” - a massa - mantém contato com a tecnologia apenas mediante seus smartphones e, alguns poucos, com computadores, ainda que este seja apenas um pequeno segmento de um conhecimento/fenômeno infinitamente maior.

    Mesmo no caso das populações de baixa renda, o uso da internet nos celulares pode ser relativamente alcançado (pelo menos em algumas vezes na semana), mediante redes de Wi-Fi abertas em locais públicos e serviço de provedor de internet compartilhado ilegalmente entre vizinhos, sendo esses exemplos da parcial e extremamente relativa democratização do acesso às redes, que ainda tem muito o que crescer no país.

    Faço menção a essa possibilidade de acesso para traçar, inicialmente, um recorte entre a classe abastada e a mais humilde no nosso país, eis que a “classe” privilegiada goza de múltiplas formas de contato com a tecnologia, para mais além do smartphone, vide as outras smart things; o uso de assistentes virtuais; videoconferências diárias, inclusive no ambiente de trabalho; utilização massiva de aplicativos de toda sorte, para as mais diversas atividades; jogos eletrônicos de alta resolução, enfim, inegável que temos aí uma enorme discrepância acerca dos bens da vida a que cada grupo tem acesso.

    No Brasil, consoante informações da FGV, já tínhamos em meados de 2020 um total de 234 milhões de smartphones, número que é impressionante quando comparado à quantidade de residentes no país, de 211 milhões. Comparativamente, a quantidade de residências com computadores no nosso país é de 190 milhões, numa proporção de 09 computadores a cada 10 habitantes. Com esses números, fica claro que o produto mais “tecnologicamente democrático” é o celular, em sua grande maioria, smartphones.

    Dos donos desses celulares, uma boa fatia é idosa. Dados de pesquisa recente (2019) demonstram que, entre as pessoas com idade a partir de 60 anos no Brasil, 58% se utilizam da internet a partir do smartphone e apenas 8% a partir do computador de mesa.

    Parece-me que muitas dessas pessoas se deixaram seduzir por algumas facilidades pós-modernas, a exemplo do resgate de músicas antigas no YouTube; pelas conversas instantâneas com familiares e grupos de familiares/amigos, ou mesmo pelas diversões proporcionadas pelo “Candy Crush”, mas muitas delas passaram longe de qualquer educação quanto ao uso e cuidados necessários no manejo desses dispositivos.

    Consoante o art. do Estatuto do Idoso (Lei n.º 10.741/2003), a idade a ser atingida pelo indivíduo para que ele seja considerado idoso é a de 60 anos. Porém, com a longevidade atual do brasileiro, o qual tem vivido em média 75 anos, certo é que esse segmento da população passará mais tempo em contato com o avanço tecnológico e terá de se adaptar à sua caminhada para usufruir dos seus benefícios e não ser prejudicada pela ignorância quanto ao seu potencial danoso.

    Pix; QR Code; Internet Banking; redes sociais; cartão de crédito por aproximação; criptomoedas; realidade virtual; tudo isso parece causar um torvelinho na mente analógica das pessoas que nasceram numa época em que a população não passava a maior parte do dia conectada. Se até mesmo aqueles que passavam muito tempo em frente à tv, décadas atrás, já recebiam críticas, o que dirá dos jovens de hoje que hoje não desgrudam do smartphone e outros dispositivos inteligentes?

    A minha geração, a dos anos 1990, foi a última considerada analógica, mas mesmo assim em fase de transição. Basta recordar que, mesmo para os mais abastados, tinha-se de chegar em casa naquela época para só então “navegar na internet” ou adentrar na “rede mundial de computadores”, como ainda insiste em dizer o Poder Judiciário (eu nunca soube do porquê de muitos juízes se recusarem a utilizar a palavra internet).

    Atualmente, não é necessário sequer se levantar da poltrona para acessar a internet, pelo menos para os idosos adeptos da utilização do smartphone. E num cenário como estes, já que estamos abordando justamente os idosos, que também fazem largo uso de tais recursos, como fica a sua familiaridade com tais dispositivos?

    Ao contrário de mim, que na infância tive aulas de informática no ensino fundamental, os idosos atuais (regra geral) não têm e nem terão aulas sobre “como transferir dinheiro pelo aplicativo do banco” ou sobre “como desconfiar de notícias estranhas”. Não. Aprendem na marra ou desistem de fazê-lo sozinhos e pedem a um neto ou filho para que o faça por eles.

    Já dava para sentir essa disparidade de nível de conhecimento décadas atrás, já nos anos 1990, momento em que a internet ainda engatinhava, pelo que o caminhar dos tempos só tem acentuado tal diferença, nesse momento em que tantas novidades “vieram para ficar”, como se diz.

    Aproveitando-se da falta de intimidade dos idosos com a tecnologia, que chega por vezes a ser chamada por muitos de “inocência”, os criminosos utilizam-se de engenharia social para ter acesso aos dados dessas pessoas e praticar, via de regra, estelionato, bem como diversos outros crimes, posteriores a essa conduta inicial. Aliás, tal prática pode, sim, ser caracterizada como phishing.

    Tivemos aí a migração de modalidades de golpe, que eram mais comumente praticadas por telefone, para a via digital, principalmente pelo WhatsApp, o aplicativo de mensagens mais difundido no nosso país, carinhosamente rebatizado pelo povo tupiniquim de “Zapzap”.

    Sendo o segundo país que mais se utiliza do WhatsApp no planeta, com 99 milhões de usuários mensais em 2019, era de se esperar que houvesse o crescimento de golpes a partir desse aplicativo contra os idosos.

    E para sermos objetivos, o que está por trás disso tudo não é outra coisa senão a ausência de “letramento digital” e da mais mínima familiaridade com o universo tecnológico.

    De acordo com a Wikipedia (estou com sorte), “letramento digital” consiste em: “práticas sociais de leitura e produção de textos em ambientes digitais, isto é, ao uso de textos em ambientes propiciados pelo computador ou por dispositivos móveis, tais como celulares e tablets, em plataformas como e-mails, redes sociais na web, entre outras".

    Creio que podemos ir além para dizer que: não basta que o usuário se familiarize com textos e/ou figuras/interface dos aplicativos e programas mais utilizados, mas também os cuidados que devem ser adotados para promover uma diminuição dos riscos inerentes ao uso desses dispositivos.

    Ora, se o idoso tem consciência de que não deve permitir que estranhos o auxiliem na sua movimentação bancária (salvo funcionários da instituição bancária, devidamente fardados), de modo presencial em agências, por que não incutir-lhes o senso no sentido de que o mesmo deve se aplicar ao ambiente digital?

    De acordo com a norma ISO 27001, há uma cadeia de eventos que pode culminar num incidente de segurança da informação, seja em relação a uma enorme organização do setor público ou privado, seja com um indivíduo particular. Fazendo-se um paralelo com a situação cotidiana vivenciada por uma idoso, temos que o tradicional trajeto ameaça => vulnerabilidade => risco => incidente podeira se configurar, na prática, do seguinte modo:

    Ameaça: indivíduo mal intencionado que obteve o número de WhatsApp de um idoso e informa a ele que trabalha para o WhatsApp, alegando que precisa realizar uma “manutenção” no celular do mesmo pela via remota. O sujeito fala com propriedade do assunto e possui até mesmo um avatar ostentando a logomarca da empresa;

    Vulnerabilidade: esta reside justamente na prefalada ausência de familiaridade do idoso com a tecnologia, sem experiência alguma quanto ao fato de que estamos sempre expostos a ataques, dos mais variados modos, no ambiente virtual.

    Risco: mediante o item anterior, temos que é muito mais provável que o atacante atinja o seu objetivo contra o seu alvo, já que é pouco provável que a vítima venha a solicitar o auxílio de um familiar ou conhecido se o passoa a passo para “corrigir o WhatsApp” é fácil de ser seguido e o golpista age de maneira a ser bastante claro nos seus comandos, a fim de que o idoso o compreenda bem.

    Incidente: aqui, o criminoso consegue atingir o seu objetivo e deixa o idoso perplexo com o “bloqueio” no acesso ao aplicativo a partir do seu celular. Alguns têm até o desplante de fazer gracinhas contra a vítima logo após.

    Diante disso, há que se ter uma preocupação pública e generalizada quanto à falta de orientação que essa parcela da população enfrenta, mesmo porque vemos do art. , caput, do Estatuto do Idoso que (grifo nosso):

    Art. 3o É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.

    Pela ordem legal, a primeira entidade responsável por garantir tais direitos ao idoso é a sua família, daí porque cabe a nós - filhos; netos; bisnetos - orientar os nossos idosos a adotarem práticas que, embora não sejam infalíveis, certamente os ajudarão a reduzir os índices de ocorrência dos golpes digitais e frustrar a atividade criminosa em inúmeras ocasiões.

    Atrevo-me a formular um elenco sugestivo de medidas de segurança a serem adotadas, para mitigação do risco quanto ao incidente de segurança da informação:

    1) Transmitir a ideia de que a internet é uma parte do mundo real. E se no mundo real nós temos gente boa/decente e golpistas/trambiqueiros, na internet é a mesma coisa;

    2) Desconfiar de mensagens repentinas de estranhos, que ofereçam ajuda ou informem que será necessário fazer alguma espécie de reparo no aparelho celular ou no aplicativo/programa, pois atualizações não necessitam de intermediários, salvo nas hipóteses em que o próprio idoso buscará o suporte especializado da organização;

    3) Desconfiar de links suspeitos, até mesmo daqueles que forem enviados por amigos e/ou familiares, sendo útil perguntar àquela pessoa do que se trata, acaso se tenha dúvida (esse ponto ganha especial relevo no campo das fake news, assunto para outro texto);

    4) Para filhos netos e bisnetos: uma medida interessante e bastante criativa que eu tenho visto consiste em: criar/desenhar um tutorial de uso dos aplicativos/programas mais utilizados pelo idoso, de modo a simular a interface e com pelo menos duas cores, tudo com o intuito de deixá-lo disponível em papel A4 ou maior, a fim de que o seu parente/amigo possa segui-lo e consultá-lo em caso de dúvidas. Dá trabalho, mas vale a pena nos esforçarmos por aqueles que fazem e fizeram tanto por nós (já há vários exemplos no YouTube e Google, basta se inspirar e pôr a mão na massa);

    5) Adoção de senhas fortes, que contenham pelo menos 8 caracteres, incluindo-se um mix de letras maiúsculas e minúsculas; números e caracteres especiais (!@#$%), evitando-se obviedades, ainda que parciais, a exemplo de iniciais do próprio nome, datas de nascimento, etc. Isso é sério, o brasileiro tem a mania de achar que segurança digital é exagero e nós, como mais jovens, temos a obrigação de incutir o senso basilar de segurança da informação nos nossos familiares, lembrando sempre que tal senha deve ser mantida em sigilo;

    6) Informar ao idoso que ele necessita guardar as senhas digitais num espaço físico seguro, ao qual somente ele tenha acesso, pois do que adianta termos mil e uma senhas se não nos lembramos de nenhuma? Isso vale para todos nós, aliás;

    7) Verificar se o celular do idoso possui bloqueio e ensiná-lo a se utilizar do travamento/destravamento por meio da digital/reconhecimento facial, desde que a adoção de tais medidas não dificultem em demasia a utilização do smartphone no dia a dia. Isso pode ser até mesmo mais confortável ao idoso do que digitar uma senha numérica para destravamento do smartphone, por exemplo;

    8) Recordar que, em se tratando de dispositivos eletrônicos, sempre há risco quanto a golpes e incidentes de segurança, porém o menos esperado e o que mais costuma ocasionar danos é aquele oriundo de nosso próprio descuido como usuários.

    Quanto à preocupação pública em face à inclusão digital, trago importante contribuição da OAB/PE, a qual, atenta às necessidades do advogado idoso, teve a iniciativa, já em 2018, de idealizar o “Programa de Inclusão Digital para Advogados Sênior”, o qual promove aulas de informática, com foco no manuseio do computador e utilização do PJe. Tudo isso para que a sociedade pernambucana não seja privada do conhecimento desses nobres profissionais, unicamente por uma questão técnica, a qual pode ser transposta por eles com algum esforço.

    Incentivar a inclusão digital não consiste em somente doar computadores ou dispositivos eletrônicos àqueles que deles necessitam, embora essa seja uma prática bastante louvável e necessária.

    Podemos fazê-lo, também, dando suporte aos que enfrentam dificuldades no manuseio da tecnologia, aos que não possuem a mesma desenvoltura daqueles que já estão habituados a ela há anos. No caso específico do idoso, empatia e força de vontade em ser solícito e bem servir já pavimentam esse caminho do aprendizado, já que força de vontade os nossos idosos têm de sobra.

    Discursos jocosos como “maldita inclusão digital” ou “maldito seja o PC do milhão”, apesar de não parecerem, somente reforçam a segregação digital, ao mesmo tempo em que inflam a ideia deturpada no sentido de que a internet pertenceria a um determinado grupo homogêneo de pessoas, quando, na verdade, ela pertence a uma coletividade indeterminada de pessoas, de variadas etnias, crenças políticas e visões de mundo.

    Por Henrique Bandeira. Advogado especialista em Direito Digital.

    Referências:

    1 - Notícia de 2011 - ONU classifica internet como direito humano: G1 - ONU afirma que acesso à internet é um direito humano - notícias em Tecnologia e Games (globo.com);

    2 - Proposta de emenda à Constituição da República, tornando a internet um direito fundamental: Proposta inclui na Constituição o direito de acesso à internet — Senado Notícias;

    3 - Matéria FGV: Brasil tem 424 milhões de dispositivos digitais em uso, revela a 31ª Pesquisa Anual do FGVcia | Portal FGV;

    4 - Expectativa de vida do brasileiro: Brasileiro perdeu quase 2 anos de expectativa de vida na pandemia, e 2021 deve ser pior, diz demógrafa de Harvard - BBC News Brasil;

    5 - Pesquisa sobre o acesso à internet pelos idosos: Idosos estão cada dia mais conectados, diz pesquisa | Consumidor Moderno;

    6 - Ranking dos países que mais se utilizam do WhatsApp: Os 10 países que mais usam o WhatsApp no mundo em 2019 | TargetHD.net;

    7 - A respeito da definição da expressão “letramento digital”: Letramento digital | Glossário Ceale (ufmg.br);

    8 - Programa de Inclusão Digital de Advogados Senior, pela CAAPE-OAB/PE: Notícias – CAAPE – Caixa de Assistência dos Advogados de Pernambuco CAAPE.

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